Luis Vagner – Os Brasas

Grupo instrumental e vocal de rock formado por gauchos, no Bairrro Partenon de Porto Alegre em meados de 1964 com o nome The Jetsons, alterado para Os Brasas em 1967, quando gravaram o seu primeiro compacto simples (Vivo a Sofrer/Lutamos Para Viver).Em 1967, mudou o nome para Os Brasas e lançou seu único disco. Com o declínio do movimento da Jovem Guarda,o grupo se dissolveu.

Maior nome da Jovem Guarda no Rio Grande do Sul, Os Brasas é uma banda bastante peculiar. Formada no começo dos anos 60 com o nome The Jetsons, se mudou pra São Paulo em 1966, onde gravou no ano seguinte o seu primeiro registro, um compacto simples com as músicas Vivo a Sofrer e Lutamos para Viver, já com o nome definitivo. Durante esse período, participaram do programa “O Bom”, no Canal 9, com apresentação do Eduardo Araújo, além de terem sido convidados a integrar a Banda Jovem do Maestro Peruzzi, uma aposta no talento dos rapazes. A formação contava com o Luis Vagner na guitarra e vocal, o Anyres Rodrigues na guitarra, o Franco Scornavacca no baixo e o Eddy na bateria.

Em 1968, saiu o único disco dos Brasas, pela gravadora Musicolor/Continental, inédito em CD até hoje. Tanto que só foi circular pelas gerações mais novas através de uma cópia em CD-R com esse registro e mais alguns compactos, por iniciativa de uma loja musical conhecida pelas raridades em Porto Alegre. O disco original tem as seguintes faixas:

1. A distância (Oriental Sadness) (Anyres – L. Ransford)
2. Beija-me agora (Fernando Adour – Márcio Greyck)
3. Um dia falaremos de amor (Tom Gomes – Renato de Oliveira – Luiz Vagner)
4. Quando o amor bater na porta (When love comes knockin’ (at your door)) (Tom Gomes – Sedaka – C. King)
5. Meu eterno amor (Tom Gomes – Luis Vagner)
6. Que te faz sonhar, linda garota (What makes you dream, pretty girl?) (Anyres – M. Garson – J. Wilson)
7. Pancho Lopez (G. Bruns – T. Blackburt)
8. Ao partir, encontrei meu amor (No fuimos) (Osvaldo – Hugo)
9. Benzinho, não aperte (Tom Gomes – Luis Vagner)
10. Theme without a name (Clark – Davidson)
11. Não vá me deixar (Tom Gomes – Luiz Vagner)
12. Sou triste por te amar (Tom Gomes – Luiz Vagner)

O álbum abre com A distância, um cover dos Hollies, fato bem comum na Jovem Guarda, como comprovam trabalhos do Renato e seus Blue Caps, por exemplo. Mas é na segunda faixa, Beija-me agora, que começam os méritos da banda. Trata-se de uma balada com clima psicodélico, numa melodia poderosa e vozes muito bem colocadas. Um dia falaremos de amor é a típica música falada, que o Roberto Carlos eternizou em clássicos como Não quero ver você triste, com sons de violino e pianinho comandando. Quando o amor bater na porta, cover dos Monkees, ficou superior à original na minha opinião, tamanha a qualidade dos músicos. Meu eterno amor se destaca pelos vocais trabalhados com perfeição, resultando numa bonita balada. Que te faz sonhar, linda garota traz a guitarra característica do Luis Vagner, bem marcante durante toda a faixa.

Pancho Lopez, conhecida na voz do Trini Lopez, ganhou uma versão totalmente debochada, com direito a gritos em espanhol, dignos dos mais autênticos mexicanos. Ao partir, encontrei meu amor é uma faixa curiosa. Versão de uma música da banda uruguaia Los Shakers, foi gravada também pelo Renato e seus Blue Caps, porém com outro nome (Te adoro) e outra letra! Vale ouvir as duas pra comparar. Essa aqui tem uma ótima harmônica no começo, ao contrário do órgão que inicia a versão do Renato. Benzinho, não aperte é a típica música bonitinha de Jovem Guarda, com letra adolescente e bem humorada. Theme without a name é totalmente instrumental, coisas que os Brasas sabiam fazer com maestria. Não vá me deixar é uma psicodelia das boas, com uma guitarra que marcou época e influenciou muita gente. O álbum fecha com Sou triste por te amar, mais uma bela composição da dupla Tom Gomes e Luis Vagner, que aparece com cinco faixas no total.

O sucesso que poderia acontecer não chegou a se concretizar, pois no ano seguinte a banda acabou. O caminho mais curioso – e interessante – sem dúvida foi o do Luis Vagner, que mergulhou no reggae e se tornou um dos músicos mais respeitados no estilo, além de ter ajudado a moldar o samba-rock, ritmo tão em voga hoje em dia. Isso sem falar nas composições dele que grandes artistas da música brasileira gravaram. Por exemplo, a incensada Sílvia, 20 horas, domingo, gravada pelo Ronnie Von num dos seus discos psicodélicos e regravada pela banda gaúcha Video Hits em 2001, é de autoria dele. Que tal?

E mesmo assim, é estranho pensar que na época tinha gente que torcia o nariz pra eles. Ou nas palavras do meu pai, alguém que presenciou o surgimento dessas bandas nos anos 60, “Os Brasas eram meio mal vistos por muita gente. Bandas como o Som 4 – que tocava basicamente covers de Beatles – faziam mais sucesso entre o pessoal”. Explica-se: além de terem se formado num bairro de classe média baixa, (coisa que fazia diferença numa época de festas e shows em clubes tradicionais, por mais que hoje soe elitista e até descabido), eram uma banda local, e como se costuma fazer em lugares de caráter provinciano, o que vem de fora é sempre melhor. Ouvindo o som deles fica difícil conceber isso, mas acontecia. E talvez aconteça até hoje, mesmo que em outra escala.

Camisa 10 interplanetário – Por Dafne Sampaio para www.gafieiras.com.br

O morro não é alto e nem grande, mas é familiar, quente. Cravado no outro lado do Rio Pinheiros e vizinho ao câmpus da USP, zona oeste de São Paulo, o Morro do Querosene reúne movimentos variados em sua pequena extensão. Bem no centro do morro surge imponente a Igreja Racional, aquela que fez Tim Maia suingar como nunca nos LPs Racional (1975) e Racional Vol. 2 (1976), mas o grande referencial do local é a comunidade maranhense que organiza as festas de nascimento, dramas, aventuras e morte do boi. Foi em uma de suas ruas sinuosas que encontramos o gaúcho Luis Vagner.

O guitarreiro, autor de clássicos do samba-rock como “Segura a nêga”, estava no Macan Studios, propriedade de Márcia Casanova, cantora e sua atual companheira. Com dois andares, o pequeno prédio curiosamente consegue se fundir com a paisagem residencial do bairro, deixando Luis Vagner tranqüilo com seus dreads de quase 25 anos e sua guitarra balançante. Assim o encontramos, sorridente e relaxado, em um dos estúdios de ensaio, onde jaziam pedestais vazios e uma bateria desmontada.

De conversa fácil e raciocínio aparentemente desconexo, Luis Vagner foi desfiando sua memória em gauchismos, golpes e giros no violão, Jovem Guarda, saudade, suingue, futebol (foi centroavante de time francês), análises pré-Copa do Mundo, o cosmos e um CD inédito de Zé Keti feito sob sua produção. O seu otimismo sem limites, fruto de ensinamentos budistas, só pareceu ter sido abalado pela morte, no final da década de 80, de um grande amigo, o cantor, percussionista e compositor paulistano Branca Di Neve.

A dor o fez sair do país e tentar a sorte na Europa, mas seu auto-exílio não durou muito. Sua “música planetária” é brasileira, familiar, quente, como nos versos de “Oi” (gravada por Branca Di Neve em Branca mete bronca! Vol. 2, 1989, seu segundo e último álbum): “Pra penetrar nos teus sonhos lindos / vou embelezar a minha voz / com chá e mel / coisas caseiras”. E é assim, entre o familiar e o cósmico, que o gaúcho guitarreiro segue evoluindo, perdido entre as coisas lindas.

Uma resposta para Luis Vagner – Os Brasas

  1. Carlos Roberto Ramos Leão

    Parabens por estas importantes Informações. A musica brasileira precisa conhecer a sua história e “músicos” como Luis Wagner não devem ser esquecidos.

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